Imagine-se diante de um desafio: “Aposto que você não consegue fazer um filme disso.” O evento em questão é a morte do Brasileiro Jean Charles de Menezes. O tal desafiado é o Henrique Goldman, que topou e desafio e… Bom, fazer o filme ele fez. Escreveu, co-produziu e co-roteirizou.
Toda vez que olho para esse pôster eu leio “STALLONE é Cobra”
Já fui ver o filme com este pensamento na cabeça, não conseguia imaginar como criar uma narrativa cinematográfica com uma vida cujo grande ponto de interesse é seu abrupto fim. Não estou dizendo que só porque o cara morreu levando chumbo na cuca que a vida dele não é interessante, mas a única coisa extraordinária da sua existência parecia ser esse evento, pelo menos para mim e para todos com quem discuti a questão. O filme não me convenceu do contrário.
A primeira cena mostra Jean voltando do Brasil com a prima. Ela está usando um visto de turismo para entrar na Inglaterra, enquanto ele tem um visto de residente (obtido ilegalmente). O papo dele de que ela está lá pra ajudá-lo com o filho recém nascido cola nos oficiais e os dois saem do aeroporto. Ele comemora sua “façanha” de convencer o pessoal da imigração numa cena que parece servir só para, desesperadamente, conseguir a simpatia do espectador, uma certa admiração pela malandragem de Menezes. Comigo não colou e acho que não sou exceção. Aliás, o filme todo é uma grande compilação de eventos mundanos na vida de Jean todos mostrados de maneira a enfiar goela abaixo do público compaixão pelo protagonista. Para se ter uma idéia, o momento “heróico” de Jean Charles é consertar o equipamento de som em um show de Sidney Magal. Não que eu não a queira ver sorrir e cantar, mas é foda. Afinal tudo é um preâmbulo mal disfarçado para a, já esperada, morte dele, logo todo peso deste momento depende da ligação do protagonista com o espectador. Comigo não colou.
A vida de Jean Charles é banal, pelo menos quando mostrada em filme. Ele é um eletricista que faz um monte de malandragens e… E… Putz, é mais ou menos isso mesmo.
Além da vida muito pouco interessante de Jean Charles, o filme decide irritar e/ou entediar mais ainda o público ao utilizar pessoas que conheceram o verdadeiro Menezes. Isso mesmo, Goldman achou uma baita idéia utilizar pessoas comuns no lugar de atores, afinal atuar nem deve ser tão difícil assim né? É horrível e rende algumas risadas até. Cenas que são feitas para passar emoção ou estabelecer personagens lembram mais aqueles episódios de Saturday Night Live onde um apresentador-celebridade muito ruim faz parte dos esquetes.
Além de o diretor Henrique Goldman cagar e andar pra qualidade da atuação dos atores e dos não-atores (ou até não-atuantes) ele ainda é ruim de câmera. Os planos totalmente chapados criam cenas visualmente chatas (em todos os sentidos… menos no de piolho de pentelho) e várias momentos no filme sofrem de movimentos de câmera e cortes que, de tão toscos se tornam aparentes e incomodam até alguém que não entende muito sobre a coisa, como eu.
E nem pra terminar o filme fica fácil, após a morte de Jean, tive de aturar mais uma meia duzia de cenas desprovidas do melhor ator do filme que pareciam existir só para que o Goldman pudesse dizer “Olha, não acaba com ele morrendo.”
Não vou matar ninguém, mas essa crítica acaba por aqui.
[Update: Esqueci de linkar o brother Rafael Gomes que aturou este horrível filme comigo e também escreveu uma crítica.]




